Andam os nossos leitores preocupados com estes redactores. Estranham o nosso silêncio. Temem por nós. Imaginam-nos presos, abandonados às mãos de uma qualquer polícia política, daquelas bem más, vítimas das mais horripilantes torturas. Todo o país literário treme, aguarda ansiosamente nos cafés, perde a inspiração para as tertúlias da semana. E eis que eles voltam. É o júbilo geral!
Na verdade, andámos ocupados: resolvemos mudar de ares. E para variar das queijadas de Sintra, fomos ao Porto ver a cena teatral. Antes de avançar mais, avisamos já o leitor incauto e néscio quanto às lides da casa: este post é sobre o inefável, ou melhor, sobre o pasmo e o silêncio! Daquele pasmo que se lê na Llansol, do inefável que se entrevê em Agostinho da Silva, do silêncio que nos avassala na prosa mística de um Peixoto (hão-de notar o contraste entre os exemplos. Pois é, é preciso promover o rapaz, vítima recente de baixíssimos ataques, e colocá-lo ao pé dos seus semelhantes já consagrados).
Como dizíamos, foi uma aprazível excursão, com diversas peripécias no comboio e depois na própria cidade. Mas os nossos intrigados leitores querem certamente saber o que nos interessou na cena teatral do Porto. Pois bem, queríamos averiguar a arte de encenar de Ricardo Pais, director do TNSJ, tão badalado cá em baixo. Tivemos, contudo, azar, visto que este prezado artista do palco não andava envolvido em nenhuma produção do momento. Lá vimos um Genet, mas não nos conformávamos com a má-sorte. Resolvemos então fazer uma vaquinha e comprar a meias um dvd do "UMHAMLETAMAIS", de há dois anos. Enfim, um Shakespeare, e para mais pelo Ricardo Pais, seria de nos encher as medidas!
Na falta de um leitor de DVDs, passámos o resto do tempo na companhia dos mais edificantes intelectuais da praça, um dos quais será motivo de conversa por aqui, no futuro, sendo-o embora já no programa da Bárbara Guimarães, onde a maviosa voz de (bom, já adivinharam?) Daniel Jonas nos preencheu o éter televisivo de forma sublime, durante alguns minutos.
Lá regressámos e ontem marcámos o visionamento. Esclarecimentos prévios ao leitor desatento: temendo pelo nível intelectual dos conterrâneos, e num piedoso acto de levar a cultura aos pobres de espírito, Ricardo Pais havia encenado um Hamlet tradicional algum tempo antes, para as gentes se habituarem à historinha e não ficarem confusas com este "UMHAMLETAMAIS", um Hamlet electrónico, como aqueles que se fazem pela Europa fora, já desde os anos 80. E, apesar dos protestos de alguns espectadores, que continuavam sem perceber o motivo para o jovem demorar tanto tempo para se decidir a trinchar o tio, Ricardo Pais ousou e inovou! Foi o pasmo!
E eis que vimos o dvd. E fez-se silêncio. O golpe de colocar o fim no princípio foi de génio e, ainda por cima, surpreendente, visto que coisas destas são raras por aí. Do nosso prisma narratológico, a coisa ainda é melhor: arrumado o tio, vai-se a teleologia e Ricardo Pais revela-se um pícaro, um autêntico nietzschiano! Quem diria! E a música, perguntam vocês? Do melhor, dizemos nós, um bocadinho de AC/DC com New Age e umas pitadas de música de discoteca. E mais, muito mais: vídeo! Em directo! O que, aliás, faz sentido num Hamlet electrónico onde o protagonista era o actual marido da Catarina Furtado, esse brilhante actor, digno dos mais altos aplausos e habituado às câmaras. Logo se vê o olho de R. Pais, ao escolher actores desta craveira e dramaturgos como Jacinto Lucas Pires.
Mas Ricardo Pais também estava atento à tradição. Conhecia os perigos e os excessos das vanguardas. E eis que surge o mais ousado contraste: os actores. Todos estamos orgulhosos com os arrojos interpretativos dos nossos actores, visto que, ao contrário de certos dos nossos cronistas, não precisam de ir aprender a profissão a Nova Iorque. Pois bem, o audaz Ricardo Pais trocou-nos as voltas e mostrou-nos actores em modo "retro": perfeitamente tradicionais, declamando para o tecto do teatro, colocando-se de joelhos no "to be or not to be", a lágrima quase no canto do olho! Nem Olivier faria melhor! Que domínio! E que nostalgia nos deu!
Ficámos inchados de orgulho pátrio! Isto é que é um teatro nacional! Isto é que são actores como deve ser! E o encenador e director, meus caros, é uma jóia!